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Publicado em 21 de agosto de 2019

Celebrado em 19 de agosto, o Dia do Artista de Teatro foi um gancho para os atores negros soteropolitanos expressarem a vontade de ver a arte negra mais presente na cidade, que é considerada a mais negra fora da África. Representados por pessoas brancas que pintavam o rosto com carvão de cortiça, os negros eram proibidos de participar de peças teatrais no século 19. A presença de pessoas negras era restrita à participação como músicos e, com o tempo, esses músicos começaram a aparecer no palco.

De acordo com o autor Gabriel dos Santos Rocha, uma das primeiras iniciativas de protagonismo de atores negros no teatro brasileiro surgiu na década de 1920, com a criação da Companhia Negra de Revistas (CNR), primeira companhia de teatro formada por atores e atrizes negras no País.

Na Bahia, no início da década de 1990, nasceu o Bando de Teatro Olodum, considerada a companhia negra mais popular e de maior longevidade do teatro baiano, além de ser uma das mais conhecidas no País.

Para o ator Sulivã Bispo, a 'Mainha' da série 'Na Rédea Curta', ter participado do Bando, como é popularmente chamado, conseguiu fortalecer sua identidade enquanto jovem negro e lhe ensinar técnicas artísticas que, segundo ele, só poderia ser aprendida lá.

"Eu aprendi a respeitar o meu corpo, a fazer um personagem com respeito e saber que todo personagem que eu fizer será preto. O que eu aprendi lá [no Bando] não vou aprender em lugar nenhum, como dança afro, a musicalidade cênica em uma cena negra, como se comportar e como atuar", declarou o artista em entrevista ao Portal A TARDE.

O Bando de Teatro Olodum foi também um "divisor de águas" na carreira do ator Leno Sacramento, que participa da companhia há 23 anos. "Eu entrei aos 18 anos, 'moreno', batista, racista e homofóbico", admitiu Leno, contando que o Bando foi responsável por lhe conscientizar. "Chegou um momento que me senti ofendido quando me chamavam de moreno, chegou um momento que a minha comunidade, em Cajazeiras, começou a me imitar quando eu deixei o meu cabelo 'black'... Eu fui enegrecendo", completou.

Conforme o ator, é motivo de felicidade quando ele vê uma sala com alunos trabalhando e fazendo oficina com a companhia. Sulivã Bispo acredita que falar da vertente do teatro negro é entrar em uma grande discussão. "A gente precisa enaltecer essa vertente para que se tenha uma arte que fale da gente [pessoas negras] e conte nossas histórias, nossa identidade e forma de falar, porque também é arte", declarou.

Segundo ele, a arte deve ter uma ligação direta com o momento político e histórico do país e com a energia do local em que o artista está se apresentando. "A partir do momento que a gente está em Salvador, que é uma cidade majoritariamente negra e que tem mazelas que assolam a nossa população, como o racismo, a gente não falar disso no palco é um erro muito grande, principalmente quando se é um artista negro consciente".

Para o ator, o reconhecimento começou a vir justamente com uma personagem que, em sua opinião, representa as 'mães pretas nordestinas', a 'Mainha'. Ele comentou que a personagem é construída pela forma como vê as suas mães, as mulheres da sua comunidade, no bairro Curuzu, as suas tias e a sua Ialorixá.

"Eu vejo a forma como elas cuidam de seus filhos e levam suas famílias para frente. Eu não uso enchimento e nem 'boto' bunda ou peito, é o meu recorte", explicou, esclarecendo que busca sempre não colocar estereótipos negativos e que ridicularizem as mulheres negras. "Mainha é uma mãe solteira, aposentada e dona de si... Acho que são várias coisas discutidas ali e uma prova disso é esse 'abraçaço' que tem da comunidade negra de Salvador e do Brasil", ressaltou o artista.

Recentemente, Sulivã Bispo estreou sua primeira série internacional e terceira no canal Multishow. Intitulada 'Férias em Família', no programa o ator interpreta um personagem que é adolescente e gay. "Eu estou muito feliz, foram três meses gravando na Europa e é um personagem super divertido, colorido e que traz várias situações pitorescas", contou.

Além disso, Sulivã também destacou que o espetáculo 'Na Rédea Curta' voltou em cartaz e que, em breve, a nova temporada será lançada no YouTube. "A gente já está com agenda fechada para os próximos meses, com apresentação no interior da Bahia, e bem felizes com essa caminhada", concluiu.

Após o 'En(Cruz)Ilhada', Leno já estreou 'Nas Encruza' e iniciou a produção de um outro espetáculo chamado 'Vielas'Após o 'En(Cruz)Ilhada', Leno já estreou 'Nas Encruza' e iniciou a produção de um outro espetáculo chamado 'Vielas'

Dirigido e apresentado pelo ator Leno Sacramento há dois anos, o espetáculo 'En(Cruz)Ilhada' é, segundo ele, uma forma de abrir os olhos da sociedade. Falando sobre o genocídio da população negra, o artista decidiu estender o trabalho em uma trilogia, para falar sobre outras temáticas como intolerância racial e homofobia.

Após o 'En(Cruz)Ilhada', Leno já estreou 'Nas Encruza' e iniciou a produção de um outro espetáculo chamado 'Vielas', que vai contar as vivências de uma mulher negra. "Eu faço a produção para terreiros, escolas, praças... E aí eu não paro. Meu figurino já está gasto, e que prazer ter que reformar por estar usando", comemorou.

O ator acredita que a cultura está sofrendo com a desvalorização, mas pontuou que os artistas devem fazer o "trabalho de base" indo nas escolas, terreiros, igrejas e comunidades mostrar que o teatro funciona. "Como uma pessoa vai saber que teatro é legal se ela nunca assistiu a um espetáculo?", questionou, frisando que o avanço da tecnologia prejudicou o cenário da arte teatral em alguns pontos, mas beneficiou em outros. "O caminho é colar com a tecnologia, se adaptar e se adequar, sabendo o que os jovens estão dizendo... Além de continuar fazendo teatro", concluiu.

Por: Ashley Malia 
Fonte: Portal A TARDE


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