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Publicado em 22 de julho de 2019

Olukemi iniciou a loja Omosholá com R$ 250 - Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDEEmpreender é identificar oportunidades, solucionar problemas e inovar. O afroempreendedorismo, além desses aspectos, é caracterizado pelo engajamento tanto em promover outros afroempreendedores quanto por incentivar uma maior variedade de produtos, principalmente voltados para a cultura negra. No Brasil, ainda que 51% dos donos de negócios sejam negros, de acordo com dados do Sebrae e Pnad, eles ainda são os que têm o menor rendimento mensal, recebendo em média R$ 1.370, enquanto os não negros recebem R$ 2.745.

“Um afroempreendedor que consegue fazer o próprio negócio crescer mostra que há um mundo de possibilidades para outros negros e acaba ganhando, querendo ou não, a responsabilidade de abrir espaço para seus pares, diminuindo essa desigualdade”, explica o analista do Sebrae José Soares. Em sua maioria, os negros costumam empreender em áreas pouco rentáveis, conta o analista, mas a forma de gerir de um afroempreendedor em nada difere de qualquer outro.

“Temos observado um crescimento na visibilidade nos negócios que abordam a diversidade e esperamos crescer junto a este movimento. A diferença é que este sempre foi o nosso público e acreditamos que podemos tirar proveito deste momento que vai na contramão da economia e fazer nossos produtos chegarem de forma mais consistente a outras regiões do país”, conta o designer gráfico Zezé Olukemi, que, junto à sócia, a pedagoga Luana Vidal, criou a loja virtual de roupas Omosholá Artes Africanizadas (@omoshola.artes) em 2008, com um investimento de pouco mais de R$ 250.

Luana ressalta que, embora o volume de vendas hoje seja menor, a variedade de perfis de clientes chama a atenção em comparação com o que era há 10 anos. “Nós sempre empreendemos, a comunidade negra sempre se virou e buscou alternativas econômicas em um país que não prioriza as nossas necessidades básicas, muito menos tem um olhar sensível nas nossas necessidades econômicas. O que nos faltava era o reconhecimento e a visibilidade para os nossos negócios”.

A museóloga de formação Lorena Lacerda (@lorenlacre) atualmente trabalha como secretária escolar, além de turbanteira. Oferecendo cursos, oficinas e workshops, Lorena procura não apenas ensinar o “saber fazer”, mas trabalha na valorização e na conscientização acerca dos turbantes. “Antes da demonstração me preocupo em mostrar a história, a origem e as formas de uso dos turbantes na cultura afro-brasileira, afinal eles são um dos símbolos que nos conectam com os negros em diáspora, seja no Brasil ou no continente africano, costumo dizer que eles são as nossas coroas”.

Lorena conta que os espaços educacionais, como escolas, faculdades e eventos maiores que reúnem escolas municipais e estaduais, são os que lideram a lista de locais para onde ela é convidada a realizar as oficinas. O mercado empreendedor para os negros na Bahia é muito complicado, afirma Lorena, principalmente para as mulheres negras. Com o grande número de desemprego, a saída é usar da criatividade para empreender.

“Diante da realidade em que a gente se encontra é preciso encontrar formas para se sustentar. Existem movimentos dentro do movimento negro e feminista que procuram incentivar não apenas a compra de produtos na mão de mulheres negras, mas também que esses produtos sejam divulgados e indicados, para que esse laço seja fortalecido e nós avancemos”, ela conta.

 

“Solidão institucional”

O empresário e vice-presidente da Associação dos Jovens Empreendedores da Bahia (AJE-BA), Marcus Casaes, conta que é muito comum estar em ambientes empresariais e de tecnologia e ser um único representante negro no palco, ou ser 1% a 5% na plateia de eventos com 200, 500 e até duas mil pessoas. “É uma verdadeira solidão institucional”. Um dos criadores do aplicativo de turismo GoOn (uma ferramenta de união entre os guias de turismo oficiais da cidade, turistas e moradores), para ele, a realidade do afroempreendedor no Brasil, principalmente nos ramos de tecnologia, não é relevante.

“Sei que sou uma exceção, só que a exceção confirma a regra. Como população negra, sofremos um sério problema: o racismo estrutural. Que já iniciou na falta de políticas públicas no período pós-escravidão, no acesso à informação e formação de qualidade, falta educação empreendedora e negação de crédito. E quando é feito um recorte da mulher negra, a situação é muito pior”, conta Marcus.

*Sob a supervisão da editora Cassandra barteló

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Priscila Dórea | Foto: Raul Spinassé | Fonte: Ag. A TARDE


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